Expresso

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expresso@acaomagazine.com

Página Descartada

20/07/2011 às 17:35:36

Ação Magazine

Pequena página pinçada de uma versão preliminar do primeiro capítulo que acabou descartada. De quebra estou tentando fazer o traço ficar mais leve e menos carregado, então a probabilidade é que vocês tenham uma pequena surpresa ao ver o resultado final. Apenas para dar um gostinho do que vem por aí. ;)


O Mundo dos Jovens Inventores

21/04/2011 às 18:27:48

Expresso!

Trens, rádios, iluminação artificial. Barcos a vapor, dirigíveis, carros. A tecnologia abriu novos caminhos ao ser humano durante a segunda metade do século dezenove – e mudaria não só a vida, mas o comportamento das pessoas que se deixaram envolver com ela. Uma máquina não era mais apenas uma geringonça. Era uma revolução na vida de todos os que a tinham ao seu alcance. Nada mais seria o mesmo. Em nenhum campo.

Para que ir à ópera se você pode trazer a ópera para dentro de casa? Para que fustigar um cavalo para uma viagem de dias quando os trens fazem o mesmo em poucas horas? Por que percorrer o oceano através de correntes marítimas quando se pode voar em linha reta? Isso tornou a ciência e tecnologia – e aqueles que as dominam – populares e de ponta. O casal Curie passaria a ser convidado para grandes eventos sociais graças à descoberta da Radioatividade. Santos Dumont era parte do grande círculo social da Paris na Belle Époque. As invenções pareciam se suceder em massa, da mais revolucionária à mais fútil, e todos os jornais pareciam documentar as novas criações que mudariam a vida da humanidade.

Inventores se tornaram figuras pop no imaginário do seu tempo, e não à toa, setores conservadores tentaram de todas as formas deter os avanços do pensamento racional e científico na forma em que as pessoas enxergavam o mundo. Um livro como A Origem das Espécies, de Charles Darwin, apresentando a vida como uma grande luta por evolução e sobrevivência, e desafiando os cânones religiosos, era exatamente aquilo que os mais conservadores não gostariam de ver como influência para os seus filhos. Mas foi isso o que ocorreu: essa postura atrairia a juventude com força, e lhes deu a certeza de que o futuro poderia ser feito por suas mãos. Era a evolução da humanidade, feita pelos que não aceitavam um discurso bovino de humildade – nas mãos de uma nova geração que tinha as armas para essa mudança e crescimento em suas mãos. Conhecimento. Técnica. Máquinas.

Os Jovens Inventores surgiram – e lançaram seu desafio para o mundo.

Os Jovens Inventores

Expresso!Jovens inventores são uma realidade que para alguns é maravilhosa; para outros, uma ameaça. Em suas academias, em discussões elitizadas, as cabeças dos meios acadêmicos os declaram como inexistentes e irrelevantes; que o que eles fazem não é ciência, mas espetáculo para as massas ignaras, e portanto não devem ser levados a sério; mas é inegável a apreensão que esses garotos despertam. Eles têm um poder que antes pertenceu apenas à adultos. Eles podem, sim, mudar a face do mundo.

Tudo começou com Johnny Brainerd no já distante ano de 1868. Além de adolescente, quase uma criança, ele era anão e corcunda ao mesmo tempo. Mas ele conseguiu fama e fortuna o suficiente para dar à sua família uma vida digna e concluir sua educação, antes de morrer; a combinação de suas duas deformidades, o nanismo e a corcunda, fez com que, à medida em que Brainerd crescia, sua capacidade de respirar e se locomover plenamente fossem gradualmente comprometidas.

Mas Brainerd fez mais do que encontrar um tesouro com uma máquina gigante. Deu um exemplo. O mundo estava mudando e a chave dessa mudança se chamava tecnologia. Brainerd dedicou seus últimos anos para a criação da Fundação Brainerd, que se instalou em Paris – porque por mais que um americano relute em admitir, lá é a capital do mundo e o único lugar onde seu sonho poderia acontecer sem atender à agendas políticas de outros potenciais países-sede.

Brainerd morreu apenas um dia antes de completar 21 anos, menos de um mês antes da inauguração da sede dos Jovens Inventores, batizada como "Chateau Newton" mas popularmente conhecida como o Castelo dos Moinhos.

Diz a lenda que Isaac Newton, na infância e adolescência, era um menino silencioso e reservado, avesso à brincadeiras físicas. Dotado de gênio inventivo, espalhava pelos cantos quadrantes solares (e em fato, é registrado historicamente que ele era capaz de dizer a hora do dia apenas olhando para as sombras no chão), relógios d'água, papagaios com rojões e, principalmente, moinhos de vento – consta que no final da adolescência, ele entulhou os riachos da região de moinhos com asas.

Os dois moinhos que adornam a construção são uma referência explícita a isso. E o Castelo dos Moinhos, localizado em um platô de origem controversa (provavelmente artificial) a alguns quilômetros de Paris, serve de ímã para vários garotos inventores ao redor do globo.

O Que é Ser um Jovem Inventor

Expresso!Jovens inventores não são muito diferentes de inventores comuns, em um tempo onde esta essa era uma profissão de risco; engenheiros e pilotos de suas próprias criações, eles dependem desesperadamente de financiamento e de criações tecnicamente efetivas, de cujas patentes eles possam viver. O Clube dos Jovens Inventores é a meta de praticamente todos os que se lançam na carreira, mas mesmo ele tem suas exigências para aqueles que querem fazer parte de suas fileiras...

Um jovem inventor quando começa a carreira, dificilmente vai ter as portas do mundo cordialmente abertas para ele. Antes de ter o seu registro aceito no Clube, ele será visto como um garoto brincando no mundo dos adultos com coisas que ele não deveria brincar – na verdade, implicitamente, o que as instituições desejam é "colocá-lo no seu devido lugar". Assim que ele tiver esse registro, será visto como algo mais que um incômodo. Será visto como uma agressão pelo simples fato dele existir – mas uma agressão legitimada pelos termos de uma organização homologada e a contragosto reconhecida. Significa que o que eles chamaram de brincadeira na verdade é a sério.

Mas conseguir essa homologação não é fácil.

Para começo de conversa, um jovem inventor precisa de recursos. Aqueles que nasceram no seio de famílias tradicionais de inventores, como as famílias Reade e Edginton americanas (de modo geral, os Estados Unidos foram os que mais geraram clãs de inventores, mas eles existem ao redor do mundo industrializado, de forma mais pulverizada), são os herdeiros não só de um nome e do dinheiro de suas famílias, mas de um espólio do qual eles se tornam – ou tornarão – os responsáveis. Financeiramente, eles estão cobertos e o nome de suas famílias pode muito bem abrir as portas que ele precisar. Geralmente eles herdam suas cadeiras no Clube dos Jovens Inventores, desde que sigam a profissão da família.

Outros jovens inventores encontram posturas mais progressivas nos seus governos e conseguem uma carta de recomendação de uma instituição em seu país que seja sólida e reconhecida internacionalmente. Eventualmente, forçando a barra, um jovem inventor com costas quentes (ou com MUITA dificuldade) pode até arrancar essa carta de alguma instituição que gostaria de vê-lo morto e enterrado.

Expresso!


Entretanto, na maior parte do mundo, o jovem inventor médio tem que começar a carreira com a cara e a coragem mesmo. Geralmente suas criações iniciais foram feitas por sua própria conta e risco, com recursos limitados. Com sorte, e muita sola gasta de sapatos, ele é capaz de encontrar um financiador para seus projetos. A partir daí, independentemente dos termos de negociação, a sua vida terá uma espécie de simbiose com seu contratante: você poderá desenvolver os seus projetos, mas terá que mostrar resultados – e espera-se que eles rendam dinheiro de alguma forma. Você viajará muito, a trabalho, e não é incomum que o seu contratante viaje com você para ver aonde o seu dinheiro está sendo aplicado. Pior: era um tempo convulsionado, cheio de rebeliões de todos os tipos. Burgueses ricos e aristocratas de modo geral eram alvos fáceis para essas pessoas. E como você trabalha para eles, considere-se em meio ao fogo cruzado.

Outra solução é alugar seus serviços para governos (normalmente de outros países que não o de origem do inventor) ou, mais provavelmente, empresas. Como jovens inventores não têm a respeitabilidade dos "cientistas sérios", muitos deles acabam usando suas invenções como mercenários, criando armas mais criativas e letais. Dentro da moral colonialista, isso é aceitável – principalmente dentro da política, muito comum na África e na Ásia, de chartered territories (onde empresas podem reivindicar a licitação da administração de uma larga extensão de terra em uma colônia – governar o país em nome da metrópole, por assim dizer). Personagens que acabem trabalhando para organizações que se opõem aos governos de seus países podem ser arrolados moralmente como criminosos e ganhar má-fama entre os seus (especialmente para os representantes dos países atingidos – um eventual Jovem Inventor inglês jamais verá com simpatia um colega que trabalhe para os Fenianos da Irlanda), mas não correm na prática o risco de perder sua homologação – nunca se pode esquecer que eventualmente os rebeldes de hoje podem ser o governo de amanhã.

No fim das contas, tendo recursos, você terá que mostrar serviço. Seus inventos serão avaliados pela cúpula do Clube. E isto é só o começo.

Uma Nuvem Negra no Ar...

Expresso!Johnny Brainerd tinha um sonho: que sua instituição fosse uma luz para os jovens do mundo; que fosse um exemplo vivo de que não importava idade, origem ou mesmo condição física; uma mostra que sim, um jovem poderia, com idéias novas e condições para colocá-las em prática, mudar a face do seu tempo, sem se deixar influenciar pelos interesses políticos do mundo ao redor. Um lugar, enfim, onde as altas aspirações poderiam, sim, ser concretizadas acima das divisões do mundo lá fora. Só que não foi isso exatamente o que aconteceu.

O Clube foi crescendo de extensão à medida em que os jovens inventores começaram a surgir ao redor do mundo. Logo, surgiram os blocos de interesse. De modo geral, o país que mais gera jovens inventores em sua extensão são os Estados Unidos, e uma olhada no seu departamento de marcas e patentes mostra que o número de registros cresce literalmente a cada dia. Tradição se tornou particularmente importante, como mostra as presenças dos Irmãos Reade (Kate e Frank Reade, III), Tom Edginton Jr., e Jack Bright, Jr. – cada um dos quatro igualmente influente, formando o eixo do chamado "Bloco Americano".

Os americanos têm, de modo geral, interesses ideológicos em comum e souberam se organizar em uma, digamos, panelinha. Ao longo dos anos, eles começaram a trazer os conterrâneos em massa para o clube justamente em nome da massa de manobra. Com isso, a atual presidência do Clube decidiu facilitar as coisas justamente para incluir pessoas de diferentes partes do mundo, para evitar a proeminência de um único grupo de interesses nas votações que decidem o destino da organização.

Apesar do próprio presidente do clube, Diossido Carbone, ter vindo de uma família tradicional de inventores que dirigiu seus esforços para a construção de foguetes, ele é um tradicionalista, que quer a todo custo preservar a intenção original de Brainerd. Mas a situação parece ser crítica. O único grande clã francês de inventores, a família Lartigue, está no vácuo de tempo onde os titulares deixaram de ser exatamente jovens, e os herdeiros do seu título ainda são pequenos demais para pleitear seu lugar no clube. A Inglaterra, como instituição, não apoia os seus jovens inventores. Os Alemães são melhor vistos pelo próprio país, mas são encarados com apreensão por alguns membros, estimulados pela localização do clube em território francês, que pinta o povo vizinho como o demônio na Terra, através de seus romances populares publicados em folhetins. Membros de outros países acabam se juntando à uma ou outra panela para não ficarem deslocados. Jovens cientistas femininas acabam se agrupando entre elas mesmas, já que entre muitos rapazes há um espírito de "quem deixou menina entrar aqui?" – mesmo que volta e meia os mesmos rapazes tenham que tirar o chapéu aos nomes de Ada Lovelace e Marie Curie.

O Clube se tornou tudo, menos um grupo de jovens unidos por uma visão, e atualmente eles só tendem a concordar quando o seu status de forma geral é ameaçado.

Enquanto isso, um mundo sombrio está se desenhando lá fora...

Expresso!


Desenvolvendo os Personagens

03/04/2011 às 14:36:15

Expresso!

Algumas pessoas viram esta imagem acima no meu Twitpic pessoal. Ela foi extraída do meu caderninho de esboços – um Moleskine genérico de capa vermelha, que acompanhou boa parte do desenvolvimento de meus personagens em sua forma atual. A verdade é que Expresso!, apesar de ser baseado em conceitos que eu tinha guardados desde os doze anos de idade, foi só tomar sua forma definitiva na virada dos anos 90 para os 2000, quando eu comecei a pôr em ordem todo esse universo sob o eixo do conceito do Edisonade. Esse caderninho na realidade reflete as dúvidas e indefinições que acompanharam a definição final dos personagens de suas formas preliminares ao que são hoje – isso porque olhando bem, as versões originais eram bem menos shonen (ou, pelo menos, menos shonen em termos de hoje em dia): eram muito ligadas a aquele espírito dos velhos materiais da World Masterpiece Theatre, que me influenciou um bocado. Não vou reclamar desse processo de "shonenização" da série porque isso deu algum tipo de personalidade à forma final; ela poderia, hoje, estar parecendo um item de nostalgia, com ecos do Miyazaki pré-Ghibli. Não acho que isso fosse algo saudável. Temos que respeitar o passado e tratá-lo com a reverência que se deve, mas temos que criar algo novo, romper com as amarras e seguir em frente. 

Então vamos falar sobre eles. A primeira coisa é que ele reflete justamente a penúltima forma do Adriano, em que ele ainda usava calças azuis (em uma versão anterior, ele usava calças azuis e colete preto, sem sobretudo) e eu não tinha certeza se o colocaria com botas mecânicas ou não. As calças azuis funcionam quando ele está sem nenhum tipo de cobertura por cima, até melhor do que com calças brancas, mas ficam tediosas quando ele usa o sobretudo – fazem com que ele pareça usar um macacão (ainda mais depois que Adriano passou a usar um "cinto de utilidades", tapando a área onde se separa o colete da calça) e isso não fica visualmente tão bom. Quanto às botas, elas deixam o visual do personagem menos ágil em vários momentos, mas temos que fazer um mínimo de concessão à lógica: ele cairia no chão o tempo todo sem elas!

 
Expresso!

Em todo caso a imagem no topo deste post define um conceito claro: identidade. Os personagens precisam ser icônicos e para isso precisam ser automaticamente identificados quando se bate o olho sobre eles. Embora a história seja em preto e branco, precisei pensar a cores para definir a garotada que povoa a série: optei por uma abordagem mais próxima visualmente dos super-heróis, onde os protagonistas tem um visual colorido e excêntrico quando estão ao lado das pessoas comuns. E levando em conta que nacionalismo era um tema central nas velhas histórias edisonades, definir os personagens pelas cores de sua bandeira me pareceu uma boa ideia. Assim, Valentina – uma jovem inventora argentina – tem um traje essencialmente azul claro e branco com detalhes amarelos (o preto no traje dela veio justamente do uniforme da seleção dos nossos vizinhos; sem aquelas calças pretas, eles pareceriam menos agressivos em campo, pode ter certeza). Carbone, italiano, tem um traje verde, branco e vermelho e por aí vai. 

Definido que Adriano operaria sob um padrão de cores "nacionais" (eu me inspirei na composição básica de cores do traje da Seleção Brasileira. Podem reparar que ela foi a melhor forma que já usaram para trabalhar as cores da nossa bandeira em um traje, com uma combinação básica de amarelo e azul; o verde é usado nos detalhes do traje amarelo e o branco, nos detalhes do traje azul), o mais importante era definir o personagem pela silhueta. Repetindo isso mais uma vez, eu dou muita importância ao fator icônico – é uma questão de percepção imediata da imagem. E veio a ideia simples de fazer com que a silhueta de Adriano o tornasse literalmente um quatro-olhos, já que ele usa dois pares de lentes; um, os populares óculos de proteção (em inglês, gears), e seus óculos propriamente ditos. O resto foi uma consequência natural do traje: já andaram com uma parca aberta? Ela é feita para ser abotoada e proteger o pescoço nos dias frios. Como o sobretudo de Adriano esconde um monte de traquitanas, ele tem que andar com esse traje pelos cantos; por outro lado, dificilmente ele vai encontrar dias frios o tempo todo em um país tropical. Logo, ele anda com o sobretudo aberto e as golas da parca são exageradas pelo traço para ficarem dependuradas o tempo todo.

 
Expresso!

Adotei mocassins, mesmo sabendo que eles são um calçado mais ligado à década de 20, justamente para valorizar o elemento branco do traje em contato com a calça azul. Com a calça branca eles se tornaram desnecessários, mas graças às linhas das meias, continuam funcionando – então tudo bem. O resto foi consequência natural dos equipamentos do Adriano; temos um motor nas costas e tubos que unem o motor às luvas. Contando com óculos e abas, o visual do personagem foi definido facilmente. 

Vocês vão reparar que a imagem à direita gerou uma das páginas finalizadas que aparecem no preview. Ela surgiu aqui, como um mero estudo, mas eu gostei tanto do resultado que eu decidi transformá-la em uma página propriamente dita. Eu aqui estava pensando não na mecânica realista de um Shoji Kawamori e seus mechas, mas no senso de gigantismo e impacto de um Jack Kirby. Trabalhar com composição de impacto não é exclusividade de autores americanos; alguns japoneses como Yoshinobu Akita (de Sorcerous Stabber Orphen) também trabalham com muita propriedade esse senso de composição de personagem nos quadros. É algo que eu não me sentiria muito confortável em fazer em uma história contemporânea, com uma ambientação mais realista, mas casa com uma luva em Expresso!, que, como faço questão de pontuar novamente, é uma história de ficção científica, com máquinas fantásticas capazes de fazer coisas extraordinárias, robôs que disparam rajadas elétricas e viagens no... ops, melhor ficar calado. 

E então é isso, pessoal. Espero que tenham curtido, e daqui para frente esse blog terá atualizações mais regulares, nem que seja apenas uma por semana. Aproveitem. :)


De Casa Nova

28/03/2011 às 20:20:02

Expresso
Só para avisar: o velho blog de Expresso! na rede social steampunk Steambook – como deve ter ficado claro para quem conhece o endereço antigo – está tendo seu conteúdo transferido para o domínio do almanaque Ação Magazine, aonde a série será publicada. Apesar de termos postado muito pouco durante nossa estada por lá, agradecemos a todos os que acompanharam (ou melhor, tentaram acompanhar, já que postei muito poucas vezes), as notificações que deixei por lá. Principalmente porque agora o projeto vai tomar impulso – levar o material para cá é uma necessidade para impulsionar a Ação em termos de divulgação. Não temos nada a reclamar do Steambook e eu recomendo a todos que amam o gênero e a estética steampunk que dêem uma olhada por lá. Vocês não vão se arrepender. 

De qualquer forma, isso me deixa com uma questão: como não vou ter dois blogs sobre o mesmo assunto, preciso encontrar um destino útil para o velho endereço – não pretendo deletá-lo, mesmo quando eu apagar os antigos artigos. Aceito sugestões, embora provavelmente eu deva me limitar a colocar os links daqui por lá – ser um blog replicador, enfim. 

Em todo caso, espero que vocês gostem da nova casa. :) 

Haverão algumas mudanças. Eu devo focar meus comentários sobre steampunk aqui – salvo os do blog Maximum Cosmo, que já tem uma nova redatora, mas que ainda contará comigo para uma ou outra notícia – e eventuais artigos mais longos. Quando o assunto envolver steampunk, ao menos avisarei aqui. E não falarei apenas de Expresso. 

Outro é que este blog finalmente se tornará mais ativo. Mostrarei making-ofs, sketches e outras coisinhas mais a respeito do material. Então, o que dizer? 

Agora é seguir em frente, finalmente.


Sobre Expresso! no Evento Space Blooks

28/03/2011 às 20:07:21

Blooks

Eu sei que tenho demorado muito a atualizar esse blog. Tenho tido bons motivos para isso: estou desenhando e preparando o projeto editorial em que Expresso! estará inserido. Por isso mesmo eu tenho apresentado poucas coisas: entre desenhar uma página ou uma ilustração que eu possa mostrar aqui, tenho dado preferência a produzir páginas. E eu tenho evitado sair mostrando o que faço – porque senão, como é que eu vou surpreender meus leitores quando sair da toca?

Mas esse é um caso especial. No dia 23 de Maio (de 2010), eu fui um dos convidados para o evento Space Blooks, na simpática livraria Blooks em Botafogo, na mesma galeria do Unibanco Arteplex. O tema seria Steampunk, e eu participaria de uma mesa-redonda com o escritor Gerson Lodi-Ribeiro, autor de ficção científica, responsável pelo contexto ficcional do MMORPG Taikodom, e com um livro novo do gênero na praça (Xochiquetzal – Uma Princesa Asteca entre os Incas, publicado pela editora Draco); e Fausto Fawcett, que é muito mais do que um cantor cercado de louras rebolantes, como deve ter sido a percepção de sua carreira pelo público nos anos noventa. Fausto é uma máquina de reprocessamento de referências culturais – e foi um dos meus ídolos de adolescência, admito. Ainda guardo o vinil do seu primeiro disco com os Robôs Efêmeros, e o considero o trabalho de ficção científica brasileira mais importante dos anos oitenta, sem brincadeira. É o nosso Bruce Sterling, na minha opinião. :)

Expresso
Foi uma experiência interessante. Falou-se de muitas coisas – do que é Steampunk, da percepção distópica do gênero nos Estados Unidos, da vindoura antologia de novelas do gênero organizada por Lodi-Ribeiro (que se chamará Vaporpunk e que reunirá autores tanto do Brasil quanto de Portugal)… Fausto apontava o Steampunk como uma resultante da saturação do presente e da busca de múltiplas subculturas, do aproveitamento e absorção de várias épocas em meio a uma pulverização de opções. Confesso que eu tendo a ser desviado, quando estou em multidões, pelas próprias multidões em si – eu presto atenção no que está sendo dito, mas também procuro olhar para as reações das pessoas na platéia às palavras proferidas.

Um dos elementos curiosos mencionados por Lodi-Ribeiro foi justamente a ausência das menções ao colonialismo e a visão profundamente europeizada do Steampunk nos materiais americanos – que provavelmente sentem uma profunda falta de uma realeza em sua história e tendem a glamourizar as ambientações monárquicas. E isso acaba indo contra boa parte da produção mais popular do século XIX e começo do XX, que mostravam aventureiros viajando para a África e América Latina – sem respeitar fronteira nenhuma, bem de acordo com o conceito do Destino Manifesto, que fez estrago e se faz sentir na atitude americana até hoje (acabei citando o Mil Milhas por Hora de Herbert Strang).

Tive oportunidade de falar um pouco sobre minha história. E isso levantou dois pontos em especial que eu gostaria de recordar.

Vivemos em uma sociedade na qual somos enquadrados desde que nascemos; somos ensinados a nos mediocrizar. Eu tomei como ponto de partida, para minha série, um evento literário: o livro Steam Man of the Prairies de Edward S. Ellis (aliás, as revistas juvenis do século passado foram um manancial imenso para Expresso!). Poucas coisas são mais simbólicas do que um garoto anão e corcunda, vivendo na pobreza, construindo por conta própria um robô a vapor para buscar um tesouro.

Claro que Expresso! é antes de mais nada uma história de entretenimento. Não quero ficar passando sermão a ninguém – isso tornaria tudo muito, muito chato. No entanto, proatividade é um conceito muito importante para minha história e não é a toa que eu citei, na “capa” do biombo em que expus algumas páginas, duas citações: uma de Marinetti e outra, no segundo biombo, de Goethe (”… no princípio era a Ação!”). Não porque eu queira realmente trazer respeitabilidade haute-couture para minhas obras. Quem se sustenta não precisa de muletas. Mas eu acho que poucas vezes esse sentimento de iniciativa foi tão bem traduzido em palavras. Eu tive que recordar isso.

Expresso
Expresso! acaba sendo realmente sobre a iniciativa própria e a força transformadora do indivíduo, a medida em que se trabalha com algum subtom confrontacional. Somos ensinados a nos adequar, e temos personagens que querem reescrever as regras do mundo. E quem ganha com a mediocrização – ou, pior ainda, aqueles para quem a proatividade incomoda porque levanta a bola da sua própria mediocridade por comparação – tende a reagir imediatamente.

Não vou negar que esse é um dos grandes temas da história. No fundo, usamos o passado para falarmos sobre o que acontece no presente. E isso não é muito difícil quando o cenário é o começo do Século XX: essencialmente o mundo como conhecemos começou ali. A aparelhagem começou a se relacionar com a vida do cidadão comum naquele momento. Empresas como a Ford e a General Electric surgiram dentro desse contexto. Lâmpadas, gramofones, rádios de galena… A tecnologia foi levada para dentro de casa. E tecnologia é poder, não esqueçam.

O outro ponto que toquei foi a natureza dos mangás como a linguagem folhetinesca por excelência de nosso tempo – os herdeiros de uma linguagem de literatura de massa que tiveram seu expoente maior na figura de Alexandre Dumas, no século XIX. Os velhos folhetins estabeleceram a fórmula editorial básica de serialização em veículos de massa para posterior compilação no ano de 1836, em jornais como o La Presse e o Le Siècle, introduzindo o conceito de obra aberta na indústria cultural: autores bem-sucedidos como Dumas precisavam da colaboração de diversos assistentes, para manter os prazos apertados exigidos pelos jornais (e ele produzia várias séries em diferentes publicações ao mesmo tempo). Os rumos de suas histórias eram determinados pela reação dos leitores, cujo termômetro eram as cartas enviadas para a redação dos jornais, e a população simplesmente parava o país ao acompanhar os dramas de personagens como Edmond Dantes ou D’Artagnan. Para os leitores de quadrinhos japoneses: isso não é familiar?

No evento, levei dez páginas para apreciação dos visitantes. Algumas delas estão ilustrando este post. Além disso, outro dos convidados, o escritor Gerson Lodi-Ribeiro – além do organizador Octavio Aragão – expuseram sua visão do evento, respectivamente, AQUI e AQUI.

Então, aproveitem e divirtam-se. :)


Sobre os Personagens

28/03/2011 às 18:48:35

Expresso

Bem, achei melhor apresentar o elenco básico da série. Como estou evitando mostrar páginas, fiz esses pequenos desenhos breves e velozes para apresentar um pouco os personagens. Não liguem, prometo trazer algo melhor acabado na próxima vez. Esses foram desenhos um pouco mais rascunhados a lápis, convertidos em arte-final via computador – e aqui quis energia, ao invés de acabamento. Mas como é raro eu colocar meus personagens com tamanha clareza de detalhes no ar, ei-los. 

Antes vale a pena fazer alguns comentários. Quando ordenei o universo de Expresso!, minha primeira intenção era fazer o material ser ambientado na Europa. Adriano, na versão do início da década, era um brasileiro em território estrangeiro (na França, mais especificamente). Ele teria como parceiros de aventuras Suzette, a filha da dona de uma pousada que ele ajudou a salvar – algo meio complexo de explicar aqui e também inútil, já que essa linha de trama foi completamente desconsiderada – mas de sua gênese como personagem falarei mais adiante; o conde Gaston de Montépin, que só é conde no papel depois da queda do governo de Luís Napoleão, mas que é um grande empresário e mecenas de Adriano; e Agoro, um gigantesco negro de mais de dois metros de altura, mordomo, guarda-costas e porrador a serviço do conde. Tudo redondinho. Com o tempo, alguns personagens se juntariam ao bando, mas a espinha dorsal da série seriam esses quatro. 

O que fez com que tudo mudasse tanto? Bem, foi um processo que surgiu quando eu decidi aumentar a percepção de Adriano como brasileiro – eu sentia que era apenas um elemento cosmético na história; tanto fazia se ele fosse brasileiro ou francês. Por isso mesmo, ele deveria começar sua jornada aqui antes de ir para a França, e encontrar paulatinamente Suzette, Gaston, etc. Só que a lógica para levá-lo a Europa acabou gerando toda uma história que foi se expandindo, expandindo, e expandindo. Embora por uma questão estrutural de roteiro ele ainda tenha que ir para a França a certa altura do campeonato (e hoje eu sei que não para sempre), a idéia de fazer de nosso país sua base de operações foi crescendo continuamente. E com isso, também foi crescendo um elemento acessório ao texto: o Clube dos Jovens Inventores. Isso tudo e a pesquisa histórica foram determinantes e o que deveria ser a primeira fase da série acabou ditando todo o tom do universo dos personagens. 

Os ajustes para realocar personagens fizeram que Gaston perdesse peso e se tornasse praticamente um coadjuvante. Claro, houve como inseri-lo logicamente no novo contexto, e colocar uma função narrativa para o personagem, mas não havia mais como fazê-lo parte do grupo dos protagonistas – ele deixara de acrescentar. E sem Gaston, Agoro também não fazia muito sentido. 

E gradualmente a construção de um roteiro fez com que o novo elenco surgisse naturalmente e definisse de vez o time que forma a atual espinha dorsal da série. É curioso pensar o que seria Expresso! se eu soltasse os personagens oito, dez, anos atrás e o que a série é hoje. Mas as criações são assim mesmo – a partir de certo ponto, elas se conduzem sozinhas. E sinceramente, isso é ótimo.

ExpressoADRIANO MONSERRAT: Isso, não “Montserrat” – é Monserrat mesmo, para que eu deixe bem claro que ele NÃO É a versão de uma terra alternativa do personagem de Lauro Corona em Direito de Amar. Na verdade, eu tinha me esquecido do próprio nome desse personagem. Eu me lembrava do Barão de Montserrat da novela, não do galã (galãs nunca são personagens marcantes), e batizei o nome do personagem de Adriano, acreditem, como uma homenagem a um dos meus dois ou três filmes favoritos de todos os tempos, Porco Rosso de Hayao Miyazaki (caso ninguém se lembre, era o nome do hotel aonde se reuniam todos os piratas aéreos). Nem me dei conta de que mentalmente juntava dois mais dois até ser tarde demais na minha cabeça. Posso ainda ter que mudar o sobrenome do personagem se der algum problema, mas por via das dúvidas, tirei o “t” depois do “mon”. 

Ah, sobre o personagem… bem, ele é um garoto inventor que foi estudar na França, levado sob permissão dos pais – uma família de coronéis do café da região do Vale do Paraíba (área que cobre parte dos estados do Rio de Janeiro e São Paulo, mas prefiro deixar a localização exata para a imaginação dos leitores). Para a surpresa dos pais, ele voltou como um “engenheiro diferencial” – o que nos termos da história, pode significar qualquer coisa: a palavra de ordem é ciência selvagem, aonde os limites não são claros e qualquer coisa pode sair da cartola. Isso não dá muito certo – e obviamente ele bate de frente com o lugar aonde vive: um país agrário, aonde ciência é malvista, boa parte das pessoas são ignorantes – e políticos, militares e religiosos estão firmemente unidos para que tudo permaneça assim. 

Claro que ele tem uma boa dose de conhecimento científico e inventividade – eu diria que ele é parte “detetive científico”, parte personagem de ação, com um quê daquela capacidade de fazer qualquer coisa com poucos recursos que marcou personagens como o bom e velho McGyver (leia-se, de um balde de limões e dois caixotes de madeira o nosso protagonista consegue construir uma máquina perigosa contra seus inimigos) Mas ele tem uma sombra: o fato dele ser filho e herdeiro de um coronelzão de interior é uma marca que pode ser percebida até mesmo quando ele perde a paciência com tudo e com todos – algo que pode ser tanto foco de comédia quanto drama; ao contrário do que possa parecer, ele admira e respeita o próprio pai, mas não quer se tornar como ele. E ele sabe que esse legado é parte do problema que ele tanto precisa enfrentar.

Expresso
SUZANNE “SUZETTE” MONTOLIOU: É difícil explicar antes de apresentar a personagem propriamente dita, mas sem ela, o Adriano não funciona direito. Quando a criei, ela devia ter uns quatorze, quinze anos – uma moça, em termos da época. Mas hoje, eu a desenho como uma menina mesmo – por um motivo prático: quanto mais jovens, mais curtas as saias, e como essa é uma história aonde os personagens correm e saltam o tempo todo, ficava muito complicado desenhar uma moça feita com saias até os tornozelos em cenas de corrida. Desenhar os personagens mais jovens foi uma solução prática, e reduzir a idade de um foi reduzir a idade de todos. Hoje me alegro por essa decisão; os personagens se tornaram divertidos de desenhar. 

Curiosamente, ela foi talvez a personagem que menos mudou desde que foi criada: eu costumo dizer brincando que Suzette poderia ser protagonista de seu próprio desenho animado japonês para meninas nos anos 70 – mas foi arremessada em um desenho para garotos aonde eles constroem máquinas enormes e as usam como armas uns contra os outros… e gostou disso. Não gostaria de fazer que ela caísse no clichê nipônico da Tsundere (a garota que rosna, rosna, rosna, mas tanto rosnado esconde uma poça de melado).

Originalmente, ela era uma garota francesa mais “comum”, mas a necessidade de fazer a personagem parte de uma série ambientada essencialmente aqui Brasil a fez ser transformada na filha de uma preceptora francesa, criada em uma grande fazenda no sul da Bahia (por pouco ela não virou filha de uma preceptora alemã, o que era mais comum ainda do que a presença de preceptoras francesas em grandes fazendas; seria perfeito, na verdade. No entanto, a perspectiva de transformá-la numa Susanna ou similar com sobrenome germânico não era uma boa idéia com a lembrança de uma certa srta. Richtoffen na mídia). Com o tempo... ah, vocês vão descobrir como ela se junta ao bando. Não chega a ser exatamente épico... 

O que conta é que ela é importante porque Adriano, durante seu período de faculdade, perdeu de vez boa parte de seu traquejo social em meio a universitários ferozes que não iam muito com a cara de um fedelho no ambiente. Ele teve pouco contato com gente de sua idade e hoje tem desconforto em situações sociais simples – isso quando não perde a paciência. Não é um cavalheiro. Por sua vez, o fato de ser filha de quem é faz com que ela saiba como lidar corretamente com as pessoas e apertar o botão de liga e desliga social no momento certo. Ela é a garota que sabe latim o suficiente para acompanhar a missa da igreja, fala francês, toca piano, sabe se comportar, mas dependendo da situação pode muito bem jogar tudo para o alto para se impôr. É a única que pode passar uma descompostura no Adriano sem ouvir uma resposta (muito) malcriada. Oficialmente, é sua amanuense – e realmente ela precisava de uma função mais prática nesse bando.

Expresso
ALDEIDO CARBONE: Esse surgiu de uma necessidade prática de roteiro – que Adriano tivesse um amigo de sua faixa de idade mais ou menos. É uma necessidade natural – ele precisa de personagens com que falar, que possa discutir assuntos mais próximos do que ele faz. Com o contexto do Clube dos Jovens Inventores, ficou fácil arrumar uma solução: Carbone é o responsável em avaliar se Adriano é apto a entrar na agremiação – e acaba ficando no país. 

Para não ficarmos com dois jovens inventores ultra-capazes no grupo principal de personagens, tive uma mãozinha do próprio background da série: de acordo com as regras do Clube, os filhos de um membro podem herdar sua cadeira caso dêem prosseguimento às pesquisas do pai ou sigam seu legado na ciência. Em miúdos, Carbone, assim como seus quatro outros irmãos, nunca criaram nada de inovador na vida; o seu pai, Diossido Carbone, foi desenvolvedor de tecnologia de foguetes (e acreditem, nessa época há havia interesse sobre o assunto e até a construção dos primeiros túneis de vento), mas não fez nada além disso; só entrou no clube por ter criado seus projéteis antes dos quinze anos. O irmão mais velho de Carbone é o atual presidente do clube e parece mais ligado à política interna da organização do que à ciência em si. Para ele, estar ao lado de Adriano se tornou a chance de fazer alguma coisa – e até crescer no processo. 

Carbone é italiano, e aprendeu português durante a viagem de navio graças ao método Maledetto Ruy Barbosa de Português para Italianos (acham mesmo que eu iria perder a oportunidade de soltar uma piada dessas?). ao lado de Adriano, eu o vejo com uma dinâmica parecida com os personagens de fumetti – dentro daquela estrutura de duplas como Tex e Carson, Zagor e Chico, Dylan Dog e Groucho e vários outros: como os dois estão no mesmo métier, um pode falar com o outro sobre o que está fazendo e esperar que ele entenda. É um procedimento que costuma funcionar. 

Mas eu espero que dependendo dos rumos da história, ele cresça naturalmente. E ele não vai ser o único personagem italiano do lado dos mocinhos a entrar em Expresso. A Europa vai ser importante para o futuro da série, mas o principal cenário sempre vai ser o Brasil.

Expresso
DOMINGOS: Basicamente… é o jagunço do patrãozinho Adriano – que sabe disso e detesta a idéia, mas não há muito o que fazer – ele precisa de um guarda-costas de confiança. Ele é um veterano da revolta federalista no Rio Grande do Sul, na qual lutou ainda bem adolescente, mas isso deixou marcas: ele chegou a lutar pelos dois lados e seu desencanto com ambos o levou a usar um lenço negro, em rejeição a tudo o que viu durante aqueles anos.
 
Curiosamente esse personagem originalmente era para ser nada mais nada menos do que Plácido de Castro, o homem que libertou o Acre das mãos bolivianas – e na verdade das mãos americanas. Os bolivianos perderam o Acre para Galvez e, incompetentes, precisaram apelar para o Brasil (atrelado graças a um acordo feito para proteger os seringueiros brasileiros que trabalhavam na região) para tirar o sujeito do poder. Mas eles ainda se ressentiam e pretendiam fazer um acordo de Chartered Territory, nos moldes das colônias africanas, entre empresas gringas e seu país. Essencialmente essas empresas passariam a administrar a região e se quisessem, poderiam remover os brasileiros – e colocar o exército de seu país para garantir seus interesses; é assim que o esquema funciona. Os brasileiros e bolivianos que residiam na região se uniram, sob a liderança de Castro, e tomaram o local na marra – acabando por gerar uma intervenção do Brasil que tomou o país dos bolivianos. Claro, sempre vai ter quem tome as dores dos nossos vizinhos sulamericanos, mas lembrem-se do precedente: se os bolivianos tivessem vencido, provavelmente teríamos uma Porto Rico – ou pior, um Alasca ou Havaí – em meio à selva amazônica. 

Como eu não vou dar muitos detalhes a respeito de um arco que ainda vai acontecer, vou apenas adiantar que a idéia original era pegar um vácuo cronológico: Plácido em 1901 era ainda um dos homens que seguiu Galvez, mas não era o líder que viria a ser. Só que duas coisas me fizeram mudar de planos. 

A primeira é o fato de eu não ter nenhuma vontade de transformar Expresso! em “O Jovem Indiana Jones”, enfiando personalidades históricas para educar as criancinhas, e tornando os personagens insuportavelmente chatos. A segunda foi que o Plácido da história foi tomando vida própria, se tornando praticamente outro personagem e eu acabei gostando dele. Então o rebatizei, reajustei seu histórico (apesar dele preservar similaridades com o Plácido na biografia, como ter lutado adolescente e mudado de lado em pleno conflito). Essa também é uma oportunidade de explorar um assunto que a história oficial gosta de minimizar quando não pode varrer por baixo do tapete: o Brasil era um verdadeiro barril de pólvora naquela época. O discurso de “país cordial” é completamente furado. Na verdade, se olharmos todos os conflitos que se passaram no Brasil em toda a nossa história, apenas três dias no calendário não marcam o aniversário de uma ou mais batalhas (uma fonte particularmente preciosa para mim nesse sentido é o Dicionário das Batalhas Brasileiras, de Hernâni Donato, publicado pela Ibrasa). Em miúdos, Domingos é o homem de armas que encontra uma causa para empunhá-las. Ah, sobre a arma enorme em sua mão… vocês não querem que eu entregue tudo, querem? 

Bom, agora chega. Vamos atualizar mais regularmente esse blog daqui para a frente.


Sobre Expresso!

28/03/2011 às 18:32:19

Expresso

Não sei dizer exatamente quando ou como surgiu o conceito dessa série na minha cabeça, mas tenho certeza que foi por volta dos meus 11, 12 anos. O herói era um garoto inventor que criava, obviamente, máquinas que lhe davam vantagem contra seus inimigos. Eu concebia a história de forma simples: ele viajava com um dirigível, a la Peter Potamus, ao lado de um mecenas conhecido apenas pelo seu título de nobreza (o Conde. Conde de quê? Ah, desde quando um garoto se preocupa com isso?), o seu mordomo Agoro – um gigante negro de perfil similar ao Lothar de Lee Falk e um velhote que pilotava o veículo – e cujo nome nem me lembro mais direito. Eles encontravam aventuras ao redor do mundo, em um cenário que olhando bem, não tinha muito foco: os aventureiros viajavam, encontravam ameaças e depois seguiam viagem. Simples assim.

Acabei deixando de lado as aventuras clássicas de Adriano, fruto de um garoto que preferia o Tio Patinhas de Barks à Mônica (um me oferecia o mundo, o outro o quintal de casa. Preferi o mundo), quando veio a adolescência e os super-heróis – que acabaram me estimulando a pegar no lápis e fazer minhas próprias histórias em definitivo. Frank Miller e Frank ReadeJohn Byrne, dois autores muito distantes entre si, acabaram fazendo minha cabeça em um tempo em que eles, sim, eram os melhores. E por muito tempo pensei que meu destino criativo era fazer super-heróis. Obviamente eu era um adolescente que não sabia nada da vida. Mas acabei sendo salvo: eu estava estudando Desenho de Artes Gráficas no Senai/RJ e passei a ter acesso imediato a duas gibiterias: a Gotham City (que não existe mais, e era aonde que eu passava horas e horas conversando fiado) e a Gibiteria e Bárbaras Magias, que na época permanecia solidamente no edifício Av. Central na Avenida Rio Branco. E acabei descobrindo os mangás, que na época eram publicados espelhados e em formato americano pelas editoras gringas, em um momento em que eu começava a me dar conta de que estava lendo os super-heróis no piloto automático. Me libertar deles levou tempo.

Em algum momento acabei desenvolvendo vários conceitos que nada tinham a ver com gente de malha colante, em profusão. Muitas dessas idéias jamais sairiam da gaveta. Mas aquele universo de garotos inventores que remetia às velhas sessões da tarde do passado, de filmes como Robur, o Conquistador e Os Primeiros Homens na Lua jamais saiu por completo da minha mente. Ele só precisava de alguma ordem estabelecida na minha cabeça.

Eu a encontrei quando ao pesquisar melhor, topei com o tema Edisonade.

Edisonade é um subgênero de aventura infanto-juvenil que surgiu no século XIX através do romance The Steam Man of Prairies, de Edward S. Ellis. Essa história jamais teve continuações oficiais, mas criou um personagem definitivo: Johnny Brainerd. Um jovem inventor de 11 anos, simultaneamente anão e corcunda, que constrói um robô movido a vapor para auxiliá-lo na busca de um tesouro que salvará sua família de problemas financeiros – e não será uma tarefa fácil.

Essa idéia acabou se tornando aquilo que no jargão hollywoodiano é conhecido como alto-conceito e se encaixou direitinho no subgênero de aventura que surgia e que seria conhecido como boy heroes, que consistia efetivamente de colocar um garoto fazendo o papel que cabia a um adulto. Surgiram assim garotos soldados, garotos detetives (os mais perenes até hoje), garotos exploradores… não é preciso dizer que o garoto inventor se juntou a esse bando com facilidade, e o maior sucesso em território americano foi sem dúvida a série de dime novels (revistas baratas com novelas ligeiras; tinham esse nome por custar um dime – ou seja, dez centavos de dólar; na inglaterra, esse tipo de material era conhecido como penny dreadful) Frank Reade, criada por Harry Enton e que, após seu esgotamento de público, foi assumida pelo escritor cubano radicado norte-americano Luis Senarens, que em um dos primeiros casos de reboot de uma franquia em nossa cultura pop, deu um salto de décadas, introduziu um filho de Reade rigorosamente igual ao pai e ainda criou um título concorrente dentro da editora – o jovem inventor Jack Wright (nada a ver com os irmãos Wright, na verdade; ele foi criado em 1891).


Tom SwiftA popularidade do gênero cairia com a Primeira Guerra Mundial, muito por causa da ressaca causada pelo conflito, que jogou no lixo as esperanças depositadas sobre a tecnologia; os garotos detetives tomaram sua frente (apesar de um dos últimos garotos inventores a surgir dentro desse contexto, o Tom Swift de Victor Appleton – criado em 1910 – ter sobrevivido à primeira guerra e gerado, como se tornou convenção do gênero, uma linhagem de filhos e netos; sempre que o personagem se esgotava, bastava fazer o pai pendurar as chuteiras, dar um salto de anos e iniciar uma nova série mostrando as aventuras do filho, e por aí vai).

Isso tudo me deu base para construir um universo aonde jovens inventores existem ao redor do globo. Ele foi se detalhando bem ao longo dos anos. Brainerd e Reade serão personagens – ou melhor, o terceiro Frank Reade o será (ele é um personagem interessante demais para ser ignorado, mas lendo friamente as aventuras do personagem, podemos reinterpretar seus atos sob uma nova ótica), e Brainerd estará morto (mas sua lembrança é perene neste universo; ele é praticamente como o astro do rock que ao morrer, leva um bando de garotos a pegar numa guitarra). Infelizmente não posso usar Tom Swift – ele é o mais conhecido de todos eles hoje em dia, nos países de língua inglesa, mas continua na estrada até hoje; por outro lado, ele é de 1910 e não apareceria mesmo. Mas por outro lado, Expresso! não é a Liga Extraordinária de Alan Moore. Eu estou criando um cenário de aventura, não um jogo pós-moderno de palavras cruzadas. Meu foco é outro.

Artigos posteriores neste blog vão apresentar um pouco do cenário, mas eu posso dizer claramente: Expresso! será uma série Steampunk, e Steampunk ao meu ver é ficção científica. Não teremos misturas nesse sentido. Eu apresentei Expresso! pela primeira vez em um projeto de quadrinhos – se bem me lembro em 2004 – conhecido como Ação Total. O projeto não deu em nada por motivos que prefiro não comentar, mas ano passado ele veio à tona em papel através do conto A Música das Esferas, publicado na antologia Steampunk da editora Tarja. Ele é parte da continuidade da série, mas deixa isso pra depois. A série gira em torno de Adriano Monserrat (o “t” removido de “Montserrat” é para deixar claro que, apesar do enorme tributo que temos que prestar à teledramaturgia que definiu a percepção que temos dessa época no Brasil, focinho de porco não é tomada e eu não estou me apropriando de personagens alheios; já disse que não estou fazendo palavras cruzadas. O meu personagem é o meu personagem, não um galã de novela em sua versão adolescente de uma dimensão alternativa), um jovem inventor que no ano de 1901, tem como objetivo ser reconhecido e deixar uma marca no mundo. Para isso, ele pretende se juntar ao Clube dos Jovens Inventores, e claro, no caminho fará vários amigos e inimigos, além de encontrar grandes desafios que o levarão a todos os cantos do país e do planeta.

Eu quero antes de mais nada fazer um grande quadrinho de aventura e ficção científica; se vou conseguir, serão vocês que vão julgar. E aqui no meu blog vocês passarão a acompanhar o desenvolvimento do projeto. No começo ele tenderá a ser um pouco mais errático, mas a medida em que as coisas forem esquentando, as postagens serão mais frequentes. Postarei imagens, falarei sobre o cenário, sobre os personagens, e eventualmente eu farei alguns artigozinhos falando de materiais que serviram de referência e influência preciosa para o material.

E de resto, espero que vocês estejam aqui comigo.

Feliz século novo e bem vindos ao ano de 1901.


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